
“Está exposto no Tate um quadro de Stanley Spencer, um retrato com um nu duplo de Spencer e da sua mulher aos quarenta e cinco anos, mais ou menos. É a quinta-essência da franqueza no tocante a coabitação, no tocante aos sexos viverem juntos ao longo do tempo. Está num dos livros de Spencer, lá em baixo. Mais tarde irei buscá-lo. Spencer está sentado, acocorado ao lado da mulher deitada. Olha meditativamente para ela, de perto, através dos óculos de aros metálicos. Nós, por nossa vez, olhamos para ambos de perto: dois corpos nus ali à frente da nossa cara, para vermos melhor que eles já não são novos e atraentes. Nenhum deles parece feliz. Um passado pesado agarra-se ao presente. No caso da mulher, em particular, começou tudo a afrouxar, a espessar, e estão para vir rigores maiores do que carne estriada.
Na beira de uma mesa, no primeiro plano imediato do quadro, encontram-se dois pedaços de carne: uma grande perna de borrego e uma única pequena costeleta. A carne crua é apresentada com uma meticulosidade fisiológica, com a mesma sinceridade cruel dos seios pendurados e do pénis descaído e não excitado expostos a poucos centímetros apenas da comida não cozinhada. É como se olhássemos através da montra do homem do talho, não apenas para a carne, mas também para a anatomia sexual do par casado. Todas as vezes que penso em Consuela vejo aquela perna de borrego crua, com a forma de uma moca primitiva, ao lado dos corpos notoriamente expostos daquele marido e da sua mulher. O facto de estar ali, tão perto do colchão deles, torna tudo cada vez menos incongruente quanto mais tempo olhamos. Há melancólica resignação na expressão um tanto ou quanto atordoada da mulher, e há aquele matacão de carne, que não tem nada em comum com um borrego vivo – e, há já três semanas, desde a visita de Consuela, que não consigo afastar nenhuma das imagens do pensamento.”
in “O Animal Moribundo” de Philip Roth