
Se não encontrar a oportunidade da sua vida, veja as nossas ofertas especiais. Dizia na porta num pedaço de papel que se costuma por debaixo do prato e dos talheres, a escrita era corrida a preto e vermelho com um par de aspas pelo meio. Tudo tinha um ar antigo.
Os objectos estavam espalhados de um a forma pouco organizada à primeira vista. Talvez tivesse havido algum cuidado ao arrumar tudo daquela maneira que, nem apelativa pretendia ser. Sem prender o olhar durante muito tempo segui, rua a direito que acabava no principio da outra rua, lá no fundo. Uma porta grande de vidro fez-me parar e olhar, sem entrar. Nada havia lá dentro, pelo menos por agora, talvez mais tarde aparecesse alguma coisa, pendurado nas paredes que deviam ser brancas. Desci os pequenos degraus que tinha subido para ali chegar.
A zona era bipolar, durante o dia era um local completamente pacato, escolas, movimento, até uma esquadra existia nas proximidades, tudo calmo, com o movimento normal para uma zona daqueles lados. Uma porta com duas mãos ainda por lá existia, recordação de há muito tempo, em que sempre que lá ia fazia questão de ir dar um aperto de mão a cada uma delas, sim, eram duas. De noite a paisagem mudava, o movimento era outro, muitas luzes de neon iluminavam os caminhos a quem por lá passava. Não era sítio de passagem, quem lá ia tinha algo a fazer por lá. Diziam que era sempre um bocado bem passado que se passava por ali. Havia mulheres encostadas pelos prédios já antigos e que abandonados ao tempo iam guardando nos seus azulejos, segredos que nunca ninguém viria a saber, apenas saíam dali quando caíam no chão e se partiam em vários bocados, enterrando ali para sempre, histórias às vezes inacreditáveis. A vontade de ali ficar por uns tempos era enorme, devia ser deveras interessante o que elas traziam por dentro daqueles corpos gastos e usados. Como tão pouca roupa conseguia tapar tanta coisa, aquilo sim, talvez fosse um interior rico e interessante. Sempre a subir, os pensamentos foram desaparecendo com a duração da caminhada. Desvanecidos quase se ausentaram quando acabou aquele pedaço de caminho, agora percorrido. Lá em cima, a vista quando se olhava para trás era fria, pequenos pontos movimentavam-se ao fundo do olhar que nada conseguia focar àquela distância. O tal jardim ficava logo a seguir àquele fim de rua, o tempo piorava, escureceu, o sol fugira do sítio de onde estava desde manhã, não o via, talvez ainda estivesse por lá, mas não o conseguia ver dali. Caminho marcado com placas de cimento compunham uma espécie de labirinto pelas entranhas do jardim, árvores talvez centenárias, outras talvez mais novas conviviam lado a lado sem preconceitos.
in Diários Visuais #01 – 2006